Sobre Desistir, de Adam Phillips
Tenho lido Sobre Desisir, de Adam Phillips, psicanalista e ensaísta britânico. O livro parte de uma palavra simples, desistir, para chegar a uma pergunta menos confortável: por que continuar nos parece tão natural, e parar nos obriga a dar explicações?
Quem permanece numa relação, insiste numa profissão ou leva um projeto até o fim raramente precisa justificar por que não desistiu. Quem abandona alguma coisa quase sempre sente que deve apresentar razões.
Essa assimetria é o ponto de partida. A perseverança carrega um valor positivo antes mesmo de perguntarmos em que estamos persistindo, para quê e a serviço de quem.
Isso inverte a questão. Em vez de perguntar apenas por que alguém quer desistir, vale perguntar por que essa pessoa sente que precisa continuar.
Duas desistências diferentes
Em On Giving Up, Phillips explora uma distinção que o inglês permite: giving something up, abrir mão de alguma coisa, e giving up, render-se, concluir que nada mais pode ser feito. Em português, a mesma palavra cobre os dois casos.
Alguém que diz “não aguento mais este trabalho, quero sair” pode estar formulando um desejo de mudança. Pode estar falando de exaustão, de decepção, de medo, ou de uma expectativa que nunca poderia ser cumprida. A frase parece clara, mas seu sentido não está dado de antemão.
Uma aposta sobre o futuro
Abrir mão de algo raramente é só eliminar. Deixa-se um emprego esperando encontrar outra forma de viver. Termina-se uma relação esperando interromper um sofrimento. Em cada caso, perdemos algo no presente em nome de uma possibilidade que ainda não conhecemos. E conhecemos menos do que pensamos aquilo que esperamos obter em troca.
Do outro lado, há quem continue por outra razão: o que já foi investido. Quanto mais anos, dinheiro e energia colocamos em algo, mais difícil parece parar. É aí que o passado começa a comandar o futuro. Quem está há quinze anos numa carreira que já não deseja não pergunta “quero isso?”, e sim “como vou justificar tudo o que gastei até aqui?”.
Continuamos, muitas vezes, porque parar nos obrigaria a reconhecer que algo mudou. E o que está em jogo não é só um projeto ou uma relação. É uma ideia de nós mesmos: a de quem não desiste, termina o que começa, cumpre o que prometeu. Essa imagem nos orienta, mas pode passar de referência a exigência.
Uma ressalva minha
Aqui vale um contraponto que não é de Phillips. Perguntar “por que preciso continuar?” pressupõe alguma liberdade para parar. Nem todos a têm. Para quem sustenta uma família ou não tem reserva financeira, a persistência muitas vezes não é vaidade nem ideal do eu, é necessidade concreta. Uma reflexão sobre desistência que ignora isso corre o risco de ser confortável demais.
Isso não invalida a pergunta. Ela só precisa ser feita sabendo que o campo de escolha varia muito de pessoa para pessoa.
O que a psicanálise escuta
Quando alguém diz que quer desistir, a psicanálise não tenta decidir se a pessoa deve ficar ou partir. Também não classifica a desistência como coragem, fraqueza, liberdade ou fuga. Escuta que lugar essa palavra ocupa na história de quem a diz.
Há quem abandone justamente quando algo começa a ganhar importância. Há quem permaneça muito depois de deixar de desejar, porque sair seria vivido como fracasso. Há quem ameace partir esperando que alguém peça para ficar. Em cada caso, “desistir” nomeia algo diferente.
Phillips não troca a moral da perseverança por uma moral do abandono. Ele tira a desistência do campo das respostas prontas: nem persistir é necessariamente virtuoso, nem abandonar é necessariamente libertador.
A pergunta passa a ser outra: o que fazemos conosco quando desistimos, e o que fazemos conosco quando não conseguimos desistir?
Podemos entender algo importante sobre alguém observando o que essa pessoa consegue largar. Também vale observar o que não consegue largar. E aquilo que continua perseguindo mesmo quando já não sabe por quê.
Desistir não é o contrário de desejar. É uma das maneiras pelas quais o desejo se revela.
Referência: Adam Phillips, Sobre Desistir. Ubu Editora 2024